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CALIBRAR O MONITOR

CALIBRAR O MONITOR
Tente distinguir todas as zonas de transição correspondentes às letras de A a Z

terça-feira, fevereiro 19

Antero de Quental *

ESPIRITUALISMO

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.


NIRVANA

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.


A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida ...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso ...


E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,


À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.
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*

domingo, fevereiro 10

O homem invisivel


OLHO CAMERA ALMA


OLHO CAMERA ALMA, é um jogo de palavras inspirado na famosa ordem dos realizadores de cinema: "luzes, camera, acção!"
Tal como acontece noutros auto-retratos meus, também neste os meus olhos não aparecem. Essa característica deve-se ao facto de eu acreditar que a fama rouba individualidade às pessoas.
À semelhança de certas crenças ancestrais, também eu acredito que, de uma forma figurada, a fotografia rouba a alma às pessoas fotografadas. E como os olhos são o espelho da alma...

terça-feira, janeiro 22

Casa Hipólito 1900 - 1990


Na fachada da Casa Hipólito, em tempos a maior indústria do Concelho de Torres Vedras, pode-se ler as seguintes datas: 1900 - 1990. Este pormenor alimentou a minha imaginação pela sua estranheza... Pareceu-me uma lápide, onde se regista a data de nascimento e morte da pessoa que cobre. Neste caso, homenagem a uma das muitas empresas (e por extensão a todas) que não resistiu à modernização, à globalização e à má gestão. Na sua agonia final deixou 600 trabalhadores desempregados, sendo que 300 deles, resistiram até ao fim.
As imagens que se seguem não pretendem ser uma foto-reportagem, no sentido clássico do género. São antes alguns apontamentos onde se experimentam diversas abordagens estéticas, com a pretensão de contar uma possível história dos últimos dias daqueles edifícios, agora em início de demolição, cruzando-a com imagens reveladoras do estado de espírito e relação pessoal com aquele espaço.

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Casa Hipólito - Armazém/perigo





Este é um velho hábito meu: marcar através de fotografias a minha presença em alguns locais por onde passo. Como se pode adivinhar aqui e confirmar mais abaixo, este é um hábito que começa a ganhar contornos conceptuais de uma maior complexidade.


domingo, janeiro 20

A história de uma cadeira



A experiência do lugar, relação muito explorada, debatida e dissecada na arte contemporânea, é desde sempre no meu trabalho fotográfico, também uma presença assídua. Sendo a fotografia, na sua essência, um registo de vivências, de momentos e lugares, acabou por se tornar natural em mim registar também a minha presença nos locais que fotografo. No entanto, tal nunca foi (e penso que nunca será) uma constante... Não é igualmente, uma situação previamente planeada. O local terá de falar primeiramente comigo, o acto de registar a minha presença é sempre negociado. Ou gosto do local em si, do momento, e quero continuar a fazer parte dele, também nas fotografias, ou não gosto, e nem penso nisso. Algo terá de fazer click na minha cabeça.

Neste caso em particular, o que me levou a estas fotografias, sei-o agora depois de ver o resultado, foi algo mais que simplesmente gostar do local. Nelas, ao contrário do que se poderia supor, quase tudo é natural, no sentido de ocasional. A cadeira já lá estava, precisamente naquela posição. A parede já era assim. E mesmo a pós-produção, me foi imposta. As tonalidades com que ficaram as fotografias à saída da máquina digital (uma compacta barata) assim o obrigaram.

Depois, houve apenas a preocupação de casar o espírito do local com o meu próprio espírito. Neste caso, o local é a Casa Hipólito, uma fábrica falida e prestes a ser demolida que produzia utensílios diversos, entre os quais fogareiros a petróleo. Os condimentos estavam lá todos. Foi só juntar-he água, ou melhor dizendo neste caso, fogo, sob forma de um fogareiro a petróleo (produzido em tempos nessa mesma fábrica) e uma moldura branca com espelho e já usada por mim em diversos auto-retratos. A pequena performance, essa foi totalmente improvisada. E o resultado, ainda alimenta a minha imaginação.

domingo, janeiro 6

It is not possible.
It is not possible to see
and to dissimulate that it is not seen.
It is not possible to hear
and to cover the ears.

It is not possible to feel…
Because to feel
it is to die on the inside,
every day,
seeing the life of the world.


PS: dedicated to all those that seeng,
that hear and although this, have the courage to feel. To see, to feel: http://www.jamesnachtwey.com/
Não é possível.
Não é possível ver

e fingir que não se vê.
Não é possível ouvir

e tapar os ouvidos.

Não é possível sentir...
Porque sentir

é morrer por dentro,
todos os dias,

vendo a vida do mundo.


PS: dedicado a todos aqueles
que vêm, ouvem e apesar disso,
têm a coragem de sentir. Para ver, para sentir: http://www.jamesnachtwey.com/

quinta-feira, janeiro 3

A casa


Ser poeta


Esta composição é dedicada a todos os poetas de rua, assim como a todos aqueles, artistas ou não, que lutam apenas para que sobreviva aquilo que são.
Nota: as palavras inscritas na fotografia da esquerda, foram retiradas do famoso poema de Florbela Espanca, que se encontra parcialmente escrito no cartaz publicitário fotografado.

sexta-feira, dezembro 28

Tempo


Sim, sou eu...
Á medida que passo, o chão foge-me debaixo dos pés. Para trás deixo os meus passos.
Os jornais, agora alinhados, dizem todos a mesma coisa. Parece que mataram aquela senhora... Aquela com o nome parecido com o óleo de fígado de bacalhau que a minha mãe me obrigava a tomar nos invernos e que eu detestava...
Parece que o tipo que o fez, estava mesmo decidido. Deu-lhe com um tiro no pescoço e depois, talvez para que ela morresse mesmo bem, ou por outra razão qualquer que desconheço, explodiu-se a ele e a mais uns quantos. Que desperdício...
Ouvi dizer que os países ocidentais tinham esperança nessa senhora, para que aquele país não se transforme num caos... A esperança morreu. Mas o caos nascerá? A vida é imprevisível, as bombas atómicas também... Poderão explodir em qualquer lado, é só uma questão de tempo... Afinal foi para isso que foram feitas...
Neste momento passo por um quintal. O cão deprimido e que cheira mal, ladrou-me como faz com toda a gente, com aquela voz grossa, embora sem convicção. Como que chateado com a humanidade e ao mesmo tempo resignado, porque está preso e não sai dali há anos.
Olho para a frente. Estou quase a chegar.
Toda a gente diz que vai começar um novo ano, mas não noto nada. Para mim, o que vai começar é um novo passo. E mais outro...
Agora é só abrir a porta e já está.

domingo, dezembro 23

Hoje não me apetece.
Faltam dois dias para o Natal,
aquele dia em que toda a gente
come e bebe até fartar de forma legal,
e não me apetece dizer nada.
Bom natal para todos.