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sexta-feira, novembro 9

O GOZO de Nuno Vaza


Ciclicamente, a arte apresenta nada. Com isso, representa tudo. Tudo o que o espectador quiser, nem que seja a sua própria indignação. Isso é o que normalmente acontece perante obras como a instalação intitulada "O GOZO", patente no Centro de Cultura Contemporânea, em Torres Vedras.

Numa sala de formato trapezoidal comprida (a fazer lembrar um corredor largo que vai afunilando ligeiramente) e completamente pintada de preto, figura, no chão, e a uma distância de cerca de dois terços do topo de fundo, um cubo preto com dimensões semelhantes a um puff e executado num material que não identifiquei. Está alí como que a convidar o espectador a sentar-se, enquanto aprecia uma projecção de 24 diapositivos projectados na parede de fundo.

Dos 24 diapositivos, o primeiro traz apenas um aviso: "ALGUMAS DESTAS IMAGENS SÃO EXTREMAMENTE CHOCANTES E SUSCEPTÍVEIS DE FERIR A SENSIBILIDADE". Os restantes 23, apresentam uma única cor: preto.

A referida instalação (ou desinstalação) patente até dia 1 de Dezembro, é de autoria do promissor e por diversas vezes premiado artista plástico, Nuno Vaza (o nome do autor condiz).

Ou poderia ter sido de João César Monteiro, o polémico e já falecido realizador do não menos polémico filme sem imagens intitulado "BRANCA DE NEVE". Ou de Ives Klein, o famoso artista plástico criador do azul Klein, única cor com a qual pintou muitos dos seus quadros, e que em 1958 inaugurou em Paris, com toda a pompa e circunstância de um grande acontecimento, protagonizado por um artista na época já relativamente conceituado e respeitado, a exposição intitulada "O VAZIO" que consistia numa sala... vazia.

Ou do artista plástico espanhol, do qual não me recordo o nome, (esvaziou-se-me...) que expôs há cerca de dois anos, na Fundação Serralves, igualmente paredes sem qualquer quadro e apenas com algumas marcas de solas de sapato, como que a convidar o espectador a descarregar a sua fúria, dando igualmente pontapés nas paredes. O que conseguiu!

Ou ainda de outro qualquer autor que desconheço por completo...

Como se pode constatar, não se trata de uma obra que pretenda possuir qualquer tipo de originalidade. No entanto, não é isso que aqui está em questão, até porque a corrida pela originalidade absoluta, esgotou-se quando Marcel Duchamp expôs o seu famoso urinol. A partir daí, tudo é possível, tudo pode ser visto. Ou nada.
Mas continua a haver uma necessidade na obra de arte. Uma necessidade que se prende com o facto de se saber se atinge ou não, os objectivos a que se propõe. E essencialmente, quais serão esses objectivos.

Em relação a esta obra, se o objectivo é gozar, com certeza que foi atingido. Porque os espectadores ao aperceberem-se que afinal não havia qualquer imagem chocante, sentiram-se com certeza gozados. Mas será que não havia mesmo qualquer imagem chocante?

Penso que a mais chocante das imagens, será a indignação de um público que se sente defraudado por não ter visto... imagens chocantes!

No entanto este tipo de manifestações artísticas levanta ainda inúmeras questões, que vão muito para além do simples gozo, que, penso só existir no título, por uma questão necessidade do autor em defender a sua reputação artística. Como quem diz... "pá, desculpem lá, isto é só uma pequena brincadeira, não levem a mal..." Compreensível. Principalmente, para quem conhece a localidade onde foi exposta a obra.

E se dúvidas houvesse sobre essa necessidade, o pacato jornal da terra, que tem como directriz editorial, não chatear muito e não dar grande destaque a questões artísticas não "oficiais", desta vez abriu duas excepções de uma só assentada, destacando na sua página seis, um artigo (com respectiva fotografia preta) e com o esclarecedor título: "TORRIENSES GOZADOS".

Mais uma vez, não me parece que o objectivo tenha sido o gozo. (Se foi, então ficou muito aquém do que poderia ser...). Ao contrário, o objectivo poderá ser o de mostrar precisamente, o VAZIO. No caso, o vazio de imagens chocantes.

Mas o vazio incomoda, precisa de ser imediatamente preenchido, nem que seja com a indignação... nem que seja com estas linhas...



PS: a imagem que aqui se apresenta como ilustrativa desta crónica, é um fundo preto do Photoshop, não é nenhum dos diapositivos da autoria do Nuno Vaza, como tal, pode ser copiada livremente sem obrigação da indicação da sua autoria.
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A exposição:

1 comentário:

Anónimo disse...

excelente exposição.

apenas digo que a obra não pertence ao artista mas sim ao quem lhe deu a inspiração...

todos nos portanto, talvez também nós estejamos a ficar vazios??!!